Salvador e a Invasão Holandesa de 1624


Na primeira metade do Século XVII, Salvador era uma das mais estratégicas cidades do Ocidente, constituindo a sede administrativa, do governo ibérico, no Atlântico, e abrigando um dos mais importantes portos do mundo, de onde partiam os fardos do chamado “ouro branco”, o açúcar. O contexto histórico que precedeu a invasão de 1624 foi marcado pela consolidação da União Ibérica e pelo aumento do interesse holandês no açúcar produzido nas Américas.


Ainda em 1599, os holandeses haviam assediado Salvador, sob ordens do almirante van Leynssen. Ao longo de pouco mais que dois meses, naves holandesas cercaram a cidade, sem, no entanto, conseguir conquistá-la. Em 1604, os holandeses tentaram, mais uma vez, desembarcar em Salvador, agora sob o comando de van Caerden. Também fracassaram no seu reiterado intento.


Na plácida Salvador setecentista, de maneira geral, o cotidiano permanecia inalterado. Os seus habitantes – indígenas aldeados, africanos, europeus e mestiços –, depois de duas tentativas holandesas fracassadas, passaram a acreditar na mística da inexpugnável “cidade fortaleza”, erigida por Tomé de Souza.


Um mês antes da invasão de 1624, tão logo soube da presença de nau holandesa na baía de Boipeba, o governador Diogo de Mendonça Furtado tomou medidas para defender a cidade, convocando tropas do Recôncavo Baiano. Contudo, essas medidas teriam sido minadas pela atuação antagônica do bispo D. Marcos Teixeira, que, descrente da invasão e movido pela vontade de contrariar o governador, exortou o retorno das tropas do Recôncavo, convocadas para a defesa da cidade, deixando Salvador à mercê dos invasores.


Em que pesem as suas dificuldades administrativas e o seu frágil sistema defensivo, Salvador padecia de rivalidades entre os seus ilustres cidadãos, especialmente entre administradores e clérigos. Após o fracasso do sistema de Capitanias, Salvador fora concebida como o centro administrativo de toda a colônia portuguesa, cujo raio de ação se estendia à África e à Ásia. Isso provocava certa vaidade nos seus habitantes, especialmente, nos membros da administração da cidade.


Além do governador, a cúpula administrativa era composta de um ouvidor-geral e de um provedor da fazenda real. A essa cúpula, seguia-se uma gama de funcionários intermediários, que se distribuíam nas funções de escrivães, de meirinhos ou de trabalhadores do Conselho de Vereança (Senado da Câmara). Havia também os clérigos, cuja enorme influência na incipiente sociedade soteropolitana os autorizava como administradores informais. Conquanto os interesses de todas essas categorias nem sempre coincidissem, era natural que rusgas e tramas fossem engendradas. Assim, desmoralizavam-se, sabotavam-se e impunham-se as suas vontades, uns sobre os outros.


Em 9 de maio de 1624, uma armada composta por 26 navios iniciou o bombardeio à cidade de Salvador. Um dia depois, as tropas holandesas desembarcaram na Barra, marchando para o centro da Cidade. Soldados e mercenários holandeses – aproximadamente, 3.400 homens – não encontraram resistência. Obrigado a se render, o Governador Diogo de Mendonça Furtado foi aprisionado na Casado Governo (atual Palácio Rio Branco) e, posteriormente, enviado para a Holanda, onde permaneceu preso até 1626. O bispo D. Marcos Teixeira, os clérigos e os funcionários públicos da Coroa refugiaram-se no aldeamento de Abrantes, lamentando o saque holandês à cidade.


Ironicamente, embora os holandeses tenham logrado invadir Salvador, estabelecendo ali um domínio – ainda que precário –, a ocupação da cidade findou por torna-los “prisioneiros” dos colonos portugueses e dos nativos, porquanto estes tenham empreendido um rigoroso confinamento aos invasores, impedindo-os de ir além dos muros da cidade.


O exame da documentação de época revela engenhosas estratégias bélicas, utilizadas por portugueses e nativos para arrefecer o ânimo do invasor em seguir para além da cidade. Essas estratégias objetivavam, basicamente, cortar o acesso dos holandeses à alimentação e à água potável e armar emboscadas aos grupos que ousassem se aventurar fora dos limites de Salvador. A adesão de portugueses e nativos à opção do combate foi fundamental para a posterior retomada da cidade, o que aconteceria apenas quando da chegada da frota ibérica libertadora, em 1625.


No entanto, a oposição encontrada pelos holandeses não foi unânime. Também houve alguma cooperação entre colonos e invasores. Se alguns colonos auxiliaram os invasores, imaginando obter algum tipo de vantagem – especialmente, motivados pela riqueza que permaneceu dentro dos muros da cidade –, por outro lado, muitos escravizados o fizeram, na esperança de encontrar destino melhor do que a escravidão. Com efeito, um expressivo contingente de africanos foragidos (alguns dos seus senhores e outros tantos recém-aportados de navios provindos de Angola) aderiu ao grupo holandês, para escapar à condição escrava.


O mesmo não ocorreu com os indígenas, sobretudo os aldeados, cuja participação na resistência foi fundamental para o sucesso do cerco. Com efeito, os primeiros ataques aos invasores holandeses foram perpetrados por indígenas, movidos pela vingança pela morte de seus parentes, durante a invasão. Num segundo momento, praticamente, todas as incursões contra os holandeses contaram com a participação dos indígenas, especialistas no combate furtivo – emboscada, ataque e fuga.


Se, em terras baianas, o cerco e as emboscadas se tornavam, cada vez mais, efetivos; na Europa, o clima era de mobilização em torno de um orgulho nacional espanhol. Os portugueses foram manipuladores habilidosos dos brios espanhóis, criando estratégias ideológicas extremamente competentes, que conclamavam os castelhanos ao combate. Estas estratégias culminaram com a montagem da armada que libertaria a cidade de Salvador, em 1625.


Por outro lado, a tensão gerada da perda da mais importante cidade colonial ibérica acirrou antagonismos históricos entre portugueses e espanhóis, postos, à época, em bandeira comum da União Ibérica. Os conflitos gerados desse acirramento teriam consequências posteriores, resultando na ascensão da dinastia de Bragança ao trono lusitano, restaurando, assim, a coroa portuguesa, sob as ordens de D. João IV.


Em 27 de março de 1625, a armada ibérica chegou à Bahia de Todos os Santos, sob o comando de Dom Fradique de Toledo Osório. Após 40 dias de intensas batalhas, as forças holandesas foram vencidas – mais tarde, em 1630, retornariam, para dominar Pernambuco. Após a expulsão dos holandeses, houve a necessidade de reorganização administrativa da cidade, tarefa nada simples, diante da falta de recursos. Posteriormente, os colonos se deram conta de que deveriam reformar todo o sistema defensivo da cidade, de maneira a evitar outras invasões.


Assim, fortes e embarcações foram reconstruídos, a um elevado custo para a cidade. Dentre as medidas adotadas para proteger Salvador, foi ordenada, também, a permanência de parte do contingente militar ibérico, chegado com a armada libertadora. No total, ficaram cerca de mil soldados, todos portugueses. O ônus da presença desses militares na cidade recaiu sobre os colonos, que tiveram os impostos expressivamente aumentados, de maneira a pagar as despesas e o soldo dos defensores. Conquanto os recursos fossem escassos, não sendo suficientes para mantê-los, os colonos passaram a temer uma rebelião. A situação foi mediada pelo Conselho de Vereança, que, além de reordenar as prioridades orçamentárias da cidade – até mesmo extinguindo órgãos púbicos –, conseguiu repassar parte dos custos com a defesa de Salvador à Coroa.


Embora longínquo, o episódio da Invasão Holandesa de 1624 foi importante para a conformação da identidade dos habitantes da Cidade de Salvador. Com a expulsão dos holandeses, em ocasião primeva talvez, tenha havido um laivo de orgulho urbanino entre os seus habitantes. Para uma melhor compreensão do período, recomenda-se o belíssimo “Salvador e a invasão holandesa de 1624-1625”, de Behrens (2013), além da consulta aos textos de Varnhagen (1955) e Silva (1963), a leitura incidental de “Geografia de Salvador”, de Andrade e Brandão (2009). Outrossim, é de grande ajuda à compreensão sobre a identidade de Salvador, o texto do eminente professor Milton Santos (2008), “O centro da cidade do Salvador: estudo de geografia urbana”. Por fim, recomenda-se ainda a leitura do magistral “Salvador: transformações e permanências (1549-1999), do professor Pedro de Almeida Vasconcelos (2016).



Referências


ANDRADE, Adriano Bittencourt; BRANDÃO, Paulo Roberto Baqueiro. Geografia de Salvador. 2. ed. Salvador: EDUFBA, 2009


BEHENS, Ricardo. Salvador e a invasão holandesa de 1624-1625. Salvador: Pontocom, 2013.


SANTOS, Milton. O centro da cidade do Salvador: estudo de geografia urbana. 2. ed. Salvador: EDUFBA, 2008. (Col. Milton Santos, v. 13).


SILVA, Alberto. A primeira capital do Brasil. Salvador: Imprensa Oficial da Bahia, 1963.


VARNHAGEN, Francisco Adolfo de. História das lutas contra os hollandezes no Brasil desde 1624 a 1654. Salvador: Livros Progresso, 1955.


VASCONCELOS, Pedro de Almeida. Salvador: transformações e permanências (1549-1999). Salvador: Edufba, 2016.


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